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sábado, 2 de julho de 2016

Os seareiros

Quando em 1921 um grupo de intelectuais funda uma revista à qual dá o título de Seara Nova, a situação do país era profundamente instável e socialmente injusta, onde as convulsões a corrupção o desemprego a miséria eram como assim dizer a marca que prevalecia.
Desse grupo de intelectuais faziam parte homens de grande valor como Raul Proença, escritor e filósofo, Jaime Cortesão, professor e historiador, António Sérgio, professor e ensaísta, Aquilino Ribeiro , Câmara Reis  , Ezequiel  de Campos e tantos outros.A preocupação com o que se passava em Portugal era enorme, este grupo de intelectuais, publicava artigos com críticas sobre diversos assuntos e a partir de 1923 sentiu-se na obrigação de pôr a inteligência e cultura ao serviço do país de uma forma mais explícita: resolveu apresentar propostas alternativas que permitissem não só estancar as convulsões que se sucediam ininterruptamente, como salvar a República e a democracia.
O facto de os homens da Seara Nova serem pessoas de saber, informadas fazia-os temer que a instabilidade permanente e em crescendo conduzisse Portugal a resvalar para uma ditadura fascista, tal como acontecera com a Itália com a tomada do poder por Benito Mussolini em 1922 e em Espanha com António Pinto Riviera em 1923.
Consideravam os seareiros que os intelectuais não podiam manter-se alheados da política, deviam intervir .
Ao tempo as instituições criadas pela república não se mostravam capazes de resolver os problemas e por isso tinham perdido a legitimidade.  A insegurança em que as pessoas viviam punha em causa a autoridade do estado.
Na opinião do seareiros, tudo se resolveria com uma reforma profunda das mentalidades, com uma aposta forte na educação .Contudo conscientes que soluções dessa natureza levariam tempo, propunham que a curto prazo que se fizesse uma reforma da administração pública que tornasse os serviços mais eficazes e que garantisse o seu funcionamento, independentemente da política .Fosse qual fosse o partido que estivesse no poder, os serviços públicos (finanças, justiça, educação, saúde..) deviam funcionar de forma a satisfazer as necessidades e anseios dos cidadãos.
Em Março de 1923 os seareiros foram ainda mais longe e propuseram que se formasse um governo com os melhores homens de todos os partidos, um governo de Salvação da República, mas a ideia não vingou, e o futuro foi aquilo que todos sabemos, uma longa ditadura.
 A pobreza, a miséria, a tristeza, a negação de direitos humanos essenciais – porque é disso que falamos quando falamos do estado actual do País – esmagam a liberdade, geram o medo, são más conselheiras. Porque também podem ser fonte de soluções antidemocráticas, que podemos suspeitar como começam mas não podemos saber como evoluem e terminam. Nesta matéria, infelizmente, experiência histórica não nos falta.
Pelos riscos e perigos da situação que se vive em Portugal, há que prestar atenção ao que se passa em países da Europa do Sul, integrantes também eles da UE, especialmente a Grécia, a Itália e a Espanha. Em particular, as recentes eleições gerais em Itália devem alertar-nos para os perigos que representam a demagogia, o populismo, a miragem de salvadores da Pátria, o controlo dos meios de comunicação de massas, tudo factores condicionantes da opinião pública e mobilizadores do eleitorado em sentidos que nada têm que ver com a Democracia entendida como governo do Povo, com o Povo e para o Povo. Se, como diz a canção-hino de José Afonso, “o povo é quem mais ordena”, é difícil imaginar que os portugueses vivam hoje numa democracia representativa, e muito menos na democracia participativa e no Estado de direito democrático de que fala o artigo 2.º da Constituição. Nenhum cidadão pode sentir-se legitimamente representado por alguém que conquistou o seu voto com um programa eleitoral que, vencidas as eleições, não só ignora como espezinha, com uma prática oposta às suas promessas eleiçoeiras. Nenhum cidadão pode sentir-se legitimamente representado quando sente que, depositado o seu voto na urna, fica esgotado o seu ciclo de participação na gestão da coisa pública.


Bem hajam 
Carlos Fernandes

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Memórias A.ruralidades




Memórias de um tempo, bem passado A.ruralidades mais que um grupo, uma paixão bem conseguida .
Memórias :

                     Vou fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejeiras .
                           "Pablo Neruda "



Até onde os dedos tocam o quente 
do barro a mão sabe 
antes de saber. 
É um saber mais vivo, um saber 
de ave: águia cegonha falcão,
animais quase no fim
como o lume destes dias.
Testemunhar a favor do lince
é nossa obrigação.
Por ser azul.
Eugénio de Andrade




     Quando as pedras choram,as gentes desviam o olhar ,o Sol esse ,continua a brilhar !
Isna de Oleiros



Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor. Essas pequenas misérias são fatais apenas no começo, na puberdade, quando se olha uma janela e se desflora quem está lá dentro. Depois, não. Depois, sofre-se é pelo homem, é pela estupidez colectiva, é por não se poder continuar alegremente num mundo povoado, e se desejar um deserto de asceta. O ascetismo é a desumanização, é o adeus à vida, e é duro ser uma espécie de fantasma da cultura cercado de areias.
Miguel Torga, in "Diário (1948)"



Querem uma Luz Melhor que a do Sol!
AH! QUEREM uma luz melhor que
a do Sol! 
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Um dia triste 
Uma vida baça
Um caminho que se fecha 
Uma árvore caída 
Uma luz que apaga 
Um brilho que fica nos meus olhos
Um dia triste
Adeus minha mãe .

Não há Nada que Resista ao Tempo Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo. Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afecto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de não terem mutuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos.
Essa certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim.
Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena de tudo aquilo, desaparecera.
Miguel Torga, in "Diário (1940)"

Pelo sonho é que vamos
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
- Partimos. Vamos. Somos.


Chegamos? Não chegamos?
Basta a fé no que temos.
Chegamos? Não chegamos?
(Sebastião da Gama)
Vamos continuar !
Bem hajam 
Carlos Fernandes

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Vinho de Talha



Considerada em risco de extinção, a produção de vinho da talha tem resistido no Alentejo. A técnica herdada dos romanos caracteriza-se pela simplicidade de processos.

A imagem cativa pela simplicidade. Ao longo do balcão de
mármore humedecido pelas pingas que caem, alinham-se homens meia-idade de boina na cabeça, um ou outro de fato-de-macaco. Todos têm à frente uma peça de fruta sobre um lenço de pano e o canivete ao lado. Peras, "pêros", pêssegos ou marmelos fazem a merenda tradicional que, ao fim da manhã de um dia de semana, vai sendo ingerida com parcimónia, acompanhada por copinhos de vinho branco servidos a bom ritmo. "Se não pedirem tinto, sirvo sempre branco. Isto é uma terra de brancos", explica António Francisco, dono, juntamente com a mulher Maria Júlia, da Taberna "O Arco". Fica no centro de Vila de Frades, freguesia situada às portas da Vidigueira, conhecida por ser o berço da casta Antão Vaz. Faltam poucos dias para a chegada do vinho novo, aquele que todos querem provar. E o que eles desejam está lá ao fundo do estabelecimento, junto à parede: três enormes talhas de barro, duas contendo vinho branco e outra vinho tinto, feitos ali mesmo.

Na auto denominada Capital do Vinho da Talha, é assim, todos os anos, por esta altura - tal como sucede um pouco por todo o Alentejo, com especial relevo nas sub-regiões de Borba, Reguengos de Monsaraz, Vidigueira e Granja. A feitura de vinho por processos artesanais, recorrendo à utilização de grandes vasilhas de barro, uma técnica herdada do período romano, subsiste, apesar de ter caído em desuso. Ao contrário da moderna produção enológica, assente em alta mecanização e no uso frequente de substâncias químicas que dão a segurança e a homogeneidade que o vinho engarrafado em grandes quantidades requer, este método arcaico de vinificação caracteriza-se por uma enorme simplicidade. Está ao alcance de quase todos saber fazê-lo, sendo esta considerada a origem do genuíno "vinho caseiro". Não espanta, por isso, que muitos dos clientes da taberna "O Arco" sejam também eles produtores. Na verdade, é uma prática que até já foi muito mais difundida, mas que se foi perdendo, tal como sucedeu com a feitura caseira do pão, por exemplo.

Como em  muitas outras regiões agrícolas da Europa meridional, noutros tempos, rara era a casa de agricultor que não tivesse produção vinícola própria. Mas, antes dos recursos trazidos pela evolução tecnológica, nada era garantido. "O processo é manual e cheio de riscos", podendo ficar tudo perdido, se não se tiverem os necessários cuidados, explica José Miguel Almeida, secretário-geral da Vitifrades, associação de desenvolvimento local surgida em 1998 e dedicada à promoção e valorização do vinho da talha. Reúne cerca de uma centena de associados dos municípios da Vidigueira, Cuba e Alvito, sendo metade deles de Vila de Frades. Os seus principais objectivos são o aumento da notoriedade desta prática enológica e a melhoria constante da qualidade do vinho assim produzido. Para isso muito tem contribuído o concurso que organiza, todos os anos, e distingue a melhor produção. Acontece durante as Festas Báquicas Vitifrades - este ano, na sua 14ª edição, realizam-se entre 9 e 11 de Dezembro.

O vinho é chamado da talha por, justamente, ser feito nesse recipiente de barro. A olaria foi trabalhada com especial sofisticação pelos romanos, sendo disso exemplo os vestígios encontrados nas vizinhas ruínas de São Cucufate. E isto terá especial importância no decurso do processo de vinificação, por o barro ser um material poroso e assim permitir uma microxigenação no interior da vasilha - que é besuntada previamente com pez, uma resina natural, a fim de evitar a oxigenação excessiva. "Existe uma grande possibilidade de se realizarem trocas gasosas através das paredes de barro da talha, o que beneficia o vinho tinto", explica José Miguel Almeida, salientando, porém, que os procedimentos são iguais para brancos e tintos. O dado mais importante, e sempre sublinhado por quem está ligado à produção, é mesmo o facto de nela não se usarem produtos químicos. "Faz-se tudo de forma tradicional, não lhe adicionamos leveduras, nem enzimas, nem taninos. Usamos zero quantidade de sulfuroso", garante o dirigente associativo e técnico de viticultura.

Apenas leveduras naturais, ou "indígenas", das uvas actuam, durante o processo de feitura da bebida. "Se, um dia, houver uma definição precisa do que é um vinho biológico, este será o que mais se lhe aproxima", afirma José Miguel, notando que as únicas substâncias adicionadas são o ácido tartárico, visando corrigir a acidez do vinho - caso contrário, o calor característico da região alentejana fá-la-ia c D cair irremediavelmente -, e o metabissulfito de potássio, com função antioxidante. Tirando isso, nada mais entra nas talhas. Como resultado dessa não utilização de correctivos, que na produção corrente visa garantir a homogeneização dos vinhos engarrafados, verifica-se uma grande heterogeneidade de estilo e de qualidade entre colheitas. Ao contrário do que sucede com a generalidade da produção colocada no mercado, não existe um vinho igual, de um ano para o outro.

A arte no barro
Ora, então, vamos lá explicar como é que as coisas se processam. Tudo muito frugal. As uvas são desengaçadas, isto é, separadas da parte lenhosa, e esmagadas, como sempre acontece. Colocadas nas talhas, nas quais acontecerá o processo fermentativo, medem-se a densidade do mosto e da sua temperatura, para assim saber o teor de açúcares. No período das 48 horas seguintes, inicia-se a fermentação do mosto - o qual é analisado para determinar o grau de acidez e a eventual necessidade de se lhe adicionar ácido tartárico. O vinho terá que ficar em contacto com as massas, até ao São Martinho. Mais ou menos, dois meses. Durante esse período, é necessário mexer diariamente as massas com um rodo de madeira - uma vara com uma "cabeça" -, mergulhando-as na parte líquida. Isto, a "molha da manta", é feito duas a três vezes, na fase mais tumultuosa da fermentação, que decorre nas primeiras duas a três semanas, e apenas uma, no restante período. No fim do processo, só existe vinho à superfície, com as massas no fundo.
Durante o período de feitura do vinho, através do seu contacto continuado com as massas, diz-se que ele está "na mãe". A camada de álcool e de dióxido de carbono que se vai acumulando na parte superior, associada ao próprio formato da talha, funciona como uma espécie de vedante natural, impedindo a oxidação. Dois meses após o começo da fermentação, retira-se o vinho pela torneira colocada no orifício existente na parte inferior da vasilha de barro, sendo de imediato colocado na parte superior da mesma. Chama-se a isto "passar o vinho", funcionando tal processo como uma filtragem natural do vinho através da parte sólida entretanto acumulada no terço inferior da talha. O objectivo é torná-lo o mais límpido possível. Estará assim pronto para consumir, sobretudo nos dois meses seguintes, pois trata-se de um produto de acentuada sazonalidade. Aliás, uma parte substancial da mais recente produção própria da Vitifrades (cerca de dois mil litros) será consumida durante as próximas Festas Báquicas.

Ainda assim, a associação lançará aproximadamente três mil garrafas de tinto, a partir das uvas Aragonez e Alicante Bouschet colhidas, na campanha deste ano, na vinha própria, que tem 0,8 hectares. Será a segunda safra do Vitifrades Amphora, "o único vinho de talha certificado em Portugal", já produzido na nova adega. O Amphora estreou-se, há poucos meses, com 900 garrafas de branco, feito a partir das castas Antão Vaz e Arinto resultantes da vindima de 2010. Existem outras produções de "vinho da talha" no Alentejo, mas não serão bem a mesma coisa do que aquela originária de Vila de Frades, alerta José Miguel Almeida. "Temos observado algumas tentativas por parte de grande produtores de, através do que escrevem no contra-rótulo das suas garrafas, sugerirem que utilizam as técnicas tradicionais do vinho da talha. Mas nós é que seguimos as regras", diz.



Bem hajam 
Carlos Fernandes

terça-feira, 1 de março de 2016

Quem não pode com o pote, não pega na rodilha ou será a sogra !

 A rodilha (ou “sogra”, como também é conhecida), é uma pequena almofada em forma circular, aberta no centro, ou um simples pano enroscado em que assentam os objectos que se levam à cabeça. As mais elaboradas eram feitas de trapos, lãs e linhas de bordar, entrançadas e bordadas
Varina de Lisboa




Na realidade trata-se de uma protecção utilizada pelas mulheres para facilitar o transporte à cabeça dos mais variados e pesados objectos.

Distinga-se aqui a rodilha (um pedaço de pano, torcido e enrolado redondo e que podia ter outros usos) da “sogra” (uma rodela almofadada de tecido ornamentado, mais a gosto das mulheres e com maior comunidade de uso), sendo esta a denominação mais comum em todo o território nacional.


Sardinheira nas aldeias 
Num passado não muito distante,naquele Portugal esquecido, onde por todos serem miseráveis, a miséria notava-se menos, tempos duros sem  água canalizada, sem luz, sem transportes, foi a rodilha ou a sogra a melhor amiga a maior ajuda .
Que o digam as tricanas e lavadeiras de Coimbra, as varinas de Lisboa, as aguadeiras de Caneças, britadeiras das minas de volfrâmio, as mulheres da beira no transporte da lenha e das pinhas e quantas e quantas vezes no transporte dos filhos .


Lavadeiras de Coimbra


Britadeiras da Beira





Mães de Portugal




O Museu Nacional de Etnologia possui alguns exemplares de “sogras” representativos de várias regiões portuguesas
Eis alguns exemplares _

Rodilha Murtosa -Aveiro


Rodilha Coimbra 






Rodilha Sertã -Castelo Branco



Rodilha  Estreito -Oleiros



Quem não pode com o pote não pegue na rodilha ou será sogra?
Bem hajam 
Carlos Fernandes


sábado, 27 de fevereiro de 2016

Há coisas eternas..... Escritas de amor !



É provável que a origem dos "lenços dos namorados" ou "lenços de pedidos"esteja nos lenços senhoris do Séc.XVII-XVIII, adaptados depois pelas mulheres do povo, dando-lhe consequentemente um aspecto popular característico.




Antes de tudo, eles faziam parte integrante do trajo feminino e tinham uma função fundamentalmente decorativa .
Eram lenços geralmente quadrados, de linho ou algodão, bordados segundo o gosto da bordadeira.





Mas não é enquanto parte integrante do trajo feminino que nos interessa o seu seu estudo, mas a sua função não menos importante , e da qual lhe vem o nome : a conquista do namorado .







A moça quando estava próximo da idade de casar confeccionava o seu lenço bordado a partir de um pano de linho fino que porventura possuía ou dum lenço de algodão que adquiria na feira ,dos chamados lenços da tropa .
Para realizar esta obra , a rapariga utilizava os conhecimentos que possuía sobre o ponto de cruz , adquiridos na infância,aquando da confecção do seu marcador ou mapa .

Depois de bordado , o lenço ia ter às "mãos do namorado"ou "conversado" e era em conformidade com a atitude deste de usar publicamente o lenço ou não , que se decidia o início duma relação amorosa .

Os lenços carregam consigo, por isso os sentimentos , amorosos duma rapariga em idade de casar, revelados através de variados símbolos amorosos como a fidelidade, a dedicação , a amizade etc...
Estes lenços eram originalmente em ponto de cruz. e por ser um ponto trabalhoso obrigava a bordadeira a passar, durante muitas semanas e mesmo durante muitos meses de serões na sua confecção.
Como a escassez de tempo passou a ser um facto na vida moderna, a mulher deixou de ter tanto tempo para a confecção destes lenços, o ritmo da vida tornou-se mais intenso e a mulher teve que solucionar este problema adoptando no bordado outros pontos mais fáceis de bordar.

Com esta alteração outras se impuseram no trabalho decorativo dos lenços de namorados : o vermelho e o preto inicial vai dar origem a uma grande quantidade de outras cores, e com elas novos motivos decorativos se impuseram .
Os lenços não deixaram porém de ser ainda mais expressivos , acompanhados muitas vezes de quadras de gosto popular dedicados aquele a quem era dirigida tão grande fantasia :O Amado.
Bem hajam
Carlos Fernandes
A nossa homenagem:
São pedras vivas da Terra Verde , deste Verde Minho.
Fazem parte integrante da Terra do Vento, das Sementes e das Pedras que rolam nos ribeiros .
São o tear a agulha e a linha com que bordam este Verde Minho, são a verdadeira Luz deste nosso Portugal .
Dedicado : Aliança Artesanal , cooperativa interesse público responsabilidade l-º
Vila Verde -Portugal


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

"Somos do povo e como ele devemos viver " Palácio de Belém .


"Somos do povo e como ele devemos viver". Esta frase de Teòfilo de Braga proferida a 24 de Outubro de 1910, dá o tom para o que viria a ser a relação da I República com o Palácio de Belém .
Para marcar a diferença em relação à monarquia, não existia uma residência oficial e a própria Constituição de 1911 proibia o uso das propriedade e imóveis da Nação para cómodo pessoal do Presidente da República ou de sua família, outros temos outras mordomias .
"Somos do povo e como ele devemos viver ".Não admira pois.que o primeiro Presidente da República e os seguintes pagassem ao Estado uma renda de Cem escudos mensais para viverem em Belém, sabe-se que em 1923 aquando da presidência de Manuel Teixeira Gomes a dita renda já ia em Três mil escudos,  outros tempos outras mordomias .



O núcleo principal do Palácio de Belém foi construído em 1559 pelo fidalgo D. Manuel de Portugal proprietário da quinta que será dada ao 2ª conde de Aveiras incluída no dote de Dona  Joana Inês de Portugal , sua noiva. Em 1726 D. João V  compra a propriedade que passa a chamar-se Casa Real de Campo de Belém . É para lá que vão os muitos animais exóticos que o rei recebe de presente, como elefantes e zebras , ficando expostos ficando em jaulas no ainda hoje conhecido como o Pátio dos Bichos .
Palácio Nacional de Belém - Pátio dos Bichos: corpo central com a cascata de Hércules

A família real começa a passar temporadas no palácio e é lá que se encontra no dia 1 de Novembro de 1755 quando o terramoto destruiu  Lisboa .Por estar localizado sobre as rochas vulcânicas do complexo basáltico de Lisboa, o palácio escapou à tragédia .
Com D. José o palácio conheceu o horror, diz-se que os aristocratas condenados no célebre processo dos Távora terão pernoitado nas jaulas do Pátio dos Bichos, na noite anterior à sua execução pública em Belém, tendo sido depois os seus corpos queimados e as cinzas lançadas ao Tejo.

A execução dos Távora 
Já no reinado de Dona Maria I o palácio é sobretudo palco dos grandes bailes oferecidos pela rainha, torna-se também o local de alojamento de hóspedes estrangeiros ilustres.
Até que em 1910,o Presidente da República do Brasil, marechal Hermes da Fonseca está alojado em Belém e ao oferece ao rei D Manuel II um banquete , no dia 3 de Outubro . Será este o último evento da monarquia .

"Somos do povo e como ele devemos viver ". Hoje uma frase em vão ,continua residência oficial do presidente , diz-se por aí que os seus custos são bem mais elevados que algumas monarquias Europeias . Novos tempos novas mordomias 
Bem hajam 
Carlos Fernandes




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Espigueiros,canastros,caniços ou hôrreos . Aqui há rato !


O espigueiro, também chamado canastro,caniço ou hôrreo, é uma estrutura normalmente de pedra e madeira, existindo no entanto alguns inteiramente de pedra, com a função de secar o milho grosso através das fissuras laterais, e ao mesmo tempo impedir a destruição do mesmo por roedores através da elevação deste. Como o milho requer que seja colhido no Outono, este precisa de estar o mais arejado possível para secar numa estação tão adversa como o Inverno.


 Construídos inteiramente em pedra, os 24 espigueiros do Soajo encontram-se “reunidos a esmo no cimo do penedo” – um longo afloramento granítico que além de acolher estas tradicionais manifestações da arquitectura do mundo rural, destinadas à armazenagem e secagem do milho, reserva também um vasto e fundamental espaço central: a eira comum.
Se a grande concentração de espigueiros é factor fundamental da imponência deste conjunto, não é menos verdade que muita da sua monumentalidade resulta do facto daquele afloramento ser bastante alto, convertendo-se numa autêntica “defesa natural” que salvaguarda aquelas construções dos animais, particularmente das galinhas, e dos incêndios.

Mas, foi um outro perigo, uma outra praga, que terá feito surgir entre nós os “espigueiros”. Não possuíam, contudo, então esta designação. Até porque as “espigas” do milho maíz, que estão na origem da sua denominação, só foram introduzidas na região no século XVI, após a descoberta das Américas, de onde é originário aquele cereal.


 Indiscutível parece ser também que na origem destes “celleiros” ou “celarios” esteve, efectivamente, uma enorme e permanente praga da região: os ratos. Com efeito, para lá da sua clara função de armazenagem e secagem ventilada, é evidente nas suas características e no engenho construtivo a preocupação que estas estruturas denotavam em resguardar o cereal daqueles roedores. Uma das estratégias mais habituais, e perfeitamente visível no Soajo, é a colocação de grandes pedras circulares entre os pés e o restante corpo dos espigueiros, constituindo um obstáculo intransponível para os ratos que possam ter subido na vertical ao longo das pernas da construção. Grande parte dos espigueiros deste conjunto utilizou, para esse fim, velhas mós de moinhos.

A grande abundância de ratos no noroeste da Península Ibérica, já mencionada por Estrabão no início da colonização romana – e que levou mesmo, na Cantábria, a que as autoridades romanas premiassem quem os matasse – só começou a ser atenuada na Baixa Idade Média com a vulgarização do gato doméstico.
Mas, nem só os ratos explicam a génese destas típicas estruturas de armazenagem. Os factores climáticos, nomeadamente a forte humidade do noroeste peninsular, foram também fundamentais no aparecimento destas construções que, embora fechadas e bem resguardadas dos agentes climáticos adversos, permitiam uma boa secagem e, em simultâneo, o armazenamento do milho em boas condições, que passavam, entre outras, por uma ventilação adequada.

O facto do milho em grão, guardado em caixa, não se conservar em média mais do que um ano, enquanto na espiga pode conservar-se durante anos, terá contribuído, fundamentalmente após a introdução do milho maiz, para algumas mudanças operadas nos espigueiros, de que são exemplo um crescimento das suas dimensões e o aparecimento de características arquitectónicas mais duradouras que, como aconteceu no Soajo, resultou mesmo na sua total petrificação. Paulatinamente, e de forma mais notória a partir do século XVIII, estes espigueiros acabaram por fazer desaparecer – já na segunda metade do século XX – os canastros ou caniços, “celeiros” mais primitivos e construídos na sua totalidade com elementos vegetais. Os últimos canastros do Soajo, que se implantavam ao lado dos espigueiros, feitos de verga de carvalheiras, eram ainda visíveis há cerca 20 anos.

Mas, se é verdade que os 24 espigueiros do Soajo acabam por constituir uma das maiores concentrações de espigueiros exclusivamente em pedra existentes no país, outros conjuntos há que, pela abundância e diversidade de tipologias que albergam, merecem também uma referência. É o caso, a uma dezena de quilómetros de distância do Soajo, do agrupamento de espigueiros do Lindoso. São 64, reunidos num curto espaço, embora não tão monumental quanto o do Soajo. Constituindo, provavelmente, o maior conjunto do país, os espigueiros do Lindoso dividem-se em diversos tipos, desde os que são exclusivamente em pedra a outros que combinam de diversos modos diferentes materiais, nomeadamente o granito, a madeira, a lousa e o tijolo. Tal como no Soajo, estes espigueiros concentram-se em torno de uma única e rectangular eira, testemunhando assim a importância do trabalho colectivo que tão intrinsecamente caracterizou estas comunidades de montanha durante séculos

Bem hajam 
Carlos Fernandes